Por que o mercado imobiliário tem reagido tão bem à pandemia?

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Crédito imobiliário acessível e aprendizados da crise de 2014 conseguiram manter o setor aquecido, segundo a presidente da Abecip.

O ano de 2020 começou com altas expectativas para quem trabalha ou investe no mercado imobiliário. Após anos de resultados oscilantes, 2019 tinha se provado um período de ótimos resultados. Nos doze meses seguintes, essa tendência tinha tudo para se fortalecer – e aí veio a pandemia de coronavírus.

E qual foi a grande surpresa? Mesmo em meio à quarentena, ao isolamento social e às incertezas políticas e econômicas, o mercado imobiliário cresceu e segue batendo recordes de vendas e financiamentos imobiliários, mês após mês.  

Segundo projeções da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança), o setor deve fechar este ano com crescimento de 34% em relação ao ano anterior, um feito e tanto perante o cenário nacional.

Para Cristiane Portella, presidente da Abecip, os sinais de retomada vêm desde 2018, e os planos para sustentá-la já continham os principais aprendizados da grande crise iniciada há seis anos. “A crise de 2014 – quando tivemos excesso de oferta, muitas pessoas comprando imóvel na planta e que depois precisaram vendê-los, excesso de lançamentos das incorporadoras – ensinou muito aos envolvidos“, lembra.

O que a pandemia fez, então, foi dar um susto no mercado entre março e abril, forçando-o a pausar em maio e junho para reajustar as velas e alterar o que fosse preciso – por exemplo, ao flexibilizar ou adiar o pagamento das parcelas de financiamentos. “A partir de julho e agosto, houve um crescimento ainda mais significativo, um acumulado anual de 40% em relação ao ano anterior. Superou o que se esperava”, diz. 

A sensação de otimismo é apoiada por frequentes notícias positivas como: aumento no preço médio de venda de apartamentos (+2,31% em 2020); aumento de 9% no número de imóveis vendidos entre julho de 2019 e julho de 2020 (mais de 125 mil unidades); e alta histórica de financiamentos contratados em agosto de 2020 (R$ 11,7 bilhões, o maior valor desde 1994). 

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3 fatores para a boa performance

Após analisar os dados e conversar com os grandes players do setor, a Abecip identificou três fatores que explicam a boa performance do mercado imobiliário brasileiro durante a pandemia.

O primeiro é a queda da taxa de juros de financiamentos imobiliários, que caiu de 11,3%, em média, em 2018 para 6,9% em 2020. Essa alteração resulta em reduções de 20% a 30% no preço das parcelas, tornando-as mais acessíveis para um número maior de compradores. 

“O Brasil nunca vivenciou um patamar dessa magnitude”, explica a presidente. “Em um financiamento de até 30 ou 35 anos, qualquer redução tem impacto muito relevante na prestação e acaba trazendo mais pessoas para o jogo. Com a redução, elas começam a ter condições de comprar ou trocar de imóvel.”

No mercado, esses compradores estão encontrando bons imóveis com preços atrativos e os vendedores estão vendo suas propriedades, pouco a pouco, voltarem a se valorizar rumo aos preços que tinham antes da crise de 2014. Ou seja, para quem precisa vender, também é um momento mais propício do que nos últimos anos. 

O terceiro fator, mais difícil de comprovar com dados mas visível para quem trabalha no setor, é algo inerente ao mercado imobiliário: a decisão de compra não é repentina

Para a imensa maioria dos brasileiros, adquirir um imóvel exige planejamento e economia. A lógica, então, é que aqueles que já tinham essa compra no horizonte e não foram diretamente impactados pela pandemia seguiram em frente, inclusive para aproveitar o crédito imobiliário mais acessível.

Além disso, a baixa histórica da Selic, que tornou investimentos em renda fixa menos interessantes, também alimenta um fluxo (ainda não mensurado) de interesse por parte de investidores, o que significa que mais compradores podem surgir. “O imóvel voltou a ser uma opção interessante de investimento“, explica Cristiane. 

O “novo normal” do mercado imobiliário está no online

Aqui no blog da Loft, já comentamos sobre a possibilidade de se fazer uma transação imobiliária 100% digital. Trata-se de uma transformação que já estava em curso há mais de um ano, mas que foi acelerada pelas condições impostas pelo isolamento social e ajudou o mercado a manter a boa performance. 

E a novidade da escritura digital não é a única: laudos eletrônicos remotos, registros de imóveis eletrônicos e a própria contratação de financiamento imobiliário através da internet se tornaram mais comuns e aceitos. 

“O mercado imobiliário evoluiu muito durante a pandemia”, diz Cristiane. “E a adoção por parte do cliente, que muitas vezes resistia ao digital, também se acelerou.” São mudanças que vieram para ficar – e para agilizar o fechamento dos negócios. 
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